Talvez a eternidade fosse sobre memórias, não pessoas.
— Monalisa.
te amo com gosto de despedida,
porque nem na mais improvável realidade paralela acabaríamos juntos.
teu riso é a melhor melodia do meu dia, mas você não é a pessoa que o destino reservou para mim.
te olho como aquele amor intenso, único, mas que eu nunca vou ter.
que vai existir nas histórias na roda de amigos, nas fotos esquecidas no celular, mas não no meu futuro. te amo no hoje como se eu não pudesse te amar no amanhã, porque não sei quanto tempo mais tempos juntos e seguro tua mão com a vontade de caminhar todos os caminhos ao teu lado, mas sei que podemos não passar da próxima esquina.
eu te amo porque amor não se controla e nem se mede, mas sei que não somos um para o outro.
porque mesmo que o amor exista, só o amor não vai suportar as explosões e os estilhaços que somos.
não é comigo o seu final feliz, nem o meu com você.voarias
e vai doer
sei que vai
mas eu fiz o meu melhor
agora não dá mais
então guardarei o que foi bom
pra não correr perigo de esquecervocê
[Nossa quase história]
vó.
a senhora nunca vai ler isso e ninguém nunca vai te contar sobre isso. primeiro porque parente nenhum sabe que tenho isso aqui, segundo porque sou tímido demais pra te contar que te escrevi.
é impressionante como a gente é fraco, como nosso corpo cede com tanta facilidade ao tempo. foi do nada. de repente, a senhora não tinha mais aquela força, aquela disposição. de repente a senhora mal conseguia levantar da cama e eu sentia vontade de chorar toda vez que a senhora precisava se mover. foi rápido e cruel. lembra quando seu único problema era o ouvido? eu lembro. e lembro também de quando a senhora não tinha problema nenhum.
lembro de quando ainda na minha infância eu contava os dias pra entrar de férias e imediatamente viajar pra sua cidade. ia sozinho mesmo, de van, e ia parar na sua casa. alívio pros meus pais, alívio pra mim. eu adorava… primeiro porque amava brincar com meus primos e primas. segund porque a senhora fazia tudo que eu gostava pra comer - e sinceramente, nem tinha trabalho. meu paladar sempre foi raso e nunca dei trabalho. a senhora fazia com todo o amor do mundo farofinha, caldinho, suco de acerola… pro lanche, quebrador! nossa, como eu amava quebrador. e o natal? puts. a senhora separava com todo carinho 10 reais pra cada neto… a conta saía alta! hoje talvez dez reais não seja muito mas na época, na nossa quantificação infantil, dez reais era tanto…
com o tempo, a idade chegou pra mim também, e a adolescência infelizmente me afastou da senhora. me afastei também dos meus primos… eu lembro exatamente do dia, talvez da minha última viagem assim, em que não sentia mais meus primos com vontade de brincar - as crianças, agora eram adolescentes entretidas demais com a internet e com vergonha de brincar na rua.
deixei de ir pra sua cidade nas férias. passei a ir só em datas comemorativas, como natal, ano novo, dia das mães… infelizmente me afastei. depois de muitos anos me afastei mais ainda, mudei de cidade, depois mudei de estado, e agora estou completamente longe.
hoje a senhora foi entubada. e eu juro que tento ser otimista mas seu estado tá tão comprometido e a senhora tá sentindo tantas coisas que eu me sinto até culpado de querer que a senhora continue entre nós. foi tão do nada. se eu soubesse que aquela seria a última vez que eu teria te visto, talvez eu tivesse dito que te amo pela primeira e última vez.
eu nunca disse que te amo porque sempre fui tímido demais pra falar o que sinto. eu nunca tirei foto com a senhora porque a senhora sempre foi tímida demais para fotos. então tudo que me resta é orar e dizer em oração o quanto eu te amo e o quanto eu quero a senhora bem, seja com a gente ou entre a gente.
eu te amo, vó.
e eu queria ter te abraçado da última vez que a vi.
te botei numa caixinha e te deixei lá. quieta. escondi, não contei pra ninguém.
mas você não foi feita pra caixinhas… você está em tudo; e tudo me lembra você.
Não vou te explicar o motivo de eu ter feito isso. Só espero que um dia você compreenda que eu nunca quis te machucar.
L.
talvez eu seja o combustível pro seu ego
e você…
a tinta da minha arte
não acho que seja justo
oi
acho que podemos pular a parte do tudo bem, né?
será que você ainda lembra de mim? ou melhor, será que você ainda sabe quem eu sou?
você lembra daquele tempo?
em que você não precisava se preocupar com muita coisa…
você lembra daquele tempo em que seus olhos eram vermelhos apenas por causa de alguma alergia a produto de limpeza?
o tempo passou… você… cresceu.
todas as suas mágoas e dores e medos e angústias e tudo que há de ruim na sua vida foi se acumulando, e você, como alguém que odeia bancar o vitimista, preferiu guardar tudo pra você. pra mim. você foi me empurrando um monte de coisa ruim e eu fiquei escondido atrás delas, com medo de me mexer e de repente tudo desmoronar como a bagunça no seu guarda-roupa. aquilo é um reflexo da sua vida… você sabe, né?
você lembra daquele tempo?
naquele tempo seus olhos também continuaram vermelhos, mas daquela vez foram por outros motivos. seu nariz também ficou vermelho, suas bochechas… ah, você não sabia disfarçar.
você lembra?
seus olhos vermelhos diziam tanto sobre você e era a única coisa que você não conseguia esconder, diferentemente de todos os seus medos e etc que empurrava pra dentro do guarda-roupa.
isso você não conseguiu esconder de ninguém, dela, nem de mim.
mas passou, certo?
ao menos era o que você pensava, era o que você me fez acreditar. você me fez ter esperança de que eu pudesse me mexer aqui dentro desse guarda-roupa, que talvez um dia você aparecesse pra lidar com essas bagunças que você jogou aqui dentro mas eu acho que você esqueceu de mim… eu acho que você esqueceu de mim porque o tempo passou, e seus olhos vermelhos voltaram.
você lembra daquele tempo?
naquele tempo seus olhos eram vermelhos apenas por alergia a produtos de limpeza. você lembra? eu lembro. seus olhos vermelhos voltaram mas você nunca voltou. você me deixou aqui - morrendo - junto com todas as coisas que você precisava lidar. você me deixou aqui dentro junto com ela, a única pessoa que você também não conseguia lidar. porque você tinha medo dela, você tem medo dela, você tem medo de mim, e de tudo que você jogou aqui dentro.
tá apertado, né? tá escuro. você sabe bem onde seus monstros estão e eles não estão embaixo da sua cama. seus monstros estão no seus olhos vermelhos no espelho. nesse guarda-roupa que você não quer abrir.
cara… em que momento você se perdeu assim? em que momento você se perdeu… de mim?
você lembra? você lembra de mim? eu era o verdadeiro você. mas seus olhos vermelhos… ah eles venceram. e agora o que você é? isso. apenas isso. um par de olhos vermelhos que não ficam mais em cor de mel quando o sol bate. olhos que parecem sangrar quando desaguam. bochechas que queimam e doem cada vez que você segura o choro porque você prometeu nunca mais chorar. porque você prometeu nunca mais sofrer por ela e de tanto se segurar, sofre mais do que o esperado.
você é só isso. você tá morrendo e você sabe. você tá morrendo e não tá nem aí. gastando seu dinheiro com qualquer coisa menos com o que deveria. você sabe que é um merda e simplesmente aceitou. porque é isso que você pensa de você, é isso que ela joga na sua cara toda vez que vocês brigam.
você lembra?
você lembra quando seus olhos vermelhos eram só alergia?
eu lembro. e eu lembro todo dia.
15.05
05h29
não ouvirão falar de nós